Maria Lenk, uma Lição de Vida – Parte II

Por José Rezende

O apoio às atividades esportivas

Com relação ao apoio por parte do governo e das empresas às atividades esportivas, Maria Lenk nos diz o que acontecia na sua época: “Não havia patrocinadores como existe hoje. O próprio governo não tinha estrutura para ajudar. Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 32, o governo de Getúlio Vargas, atendendo o pedido dos desportistas, cedeu um navio da costeira, o Itaquecê, para .levar a delegação. Como não havia dinheiro, ele ofereceu café, que depois teria que ser vendido nos EUA, para render algum dinheiro. Nesse intervalo surgiu a Revolução de 32, em São Paulo, que eliminou completamente a comunicação da delegação com o Brasil. Então foi preciso, realmente, vender o tal café, mas muitos atletas que lá estavam não chegaram a competir.”

A organização do esporte brasileiro Maria Lenk nos releva como estava estruturado, administrativamente, o desporto brasileiro: “Existia uma entidade civil, a Confederação Brasileira de Desportos. Era uma reunião de todas as federações e de todos os esportes existentes no Brasil.

Havia um grupo de desportistas fiéis à CBD e um outro grupo incentivado, sobretudo, pela Liga de Esportes da Marinha, que se interessou muito pela natação brasileira e alguns desportistas da parte carioca que fundaram o Comitê Olímpico. Eram duas entidades distintas que não se entendiam. Tanto é que foram formadas duas equipes, que finalmente se encontraram, em Berlim, e só através de intervenção diplomática conseguiram unir essas duas equipes para competirem como uma só.”

 

A carreira de Maria Lenk após Berlim

Vamos saber o que aconteceu com a brilhante carreira de Maria Lenk, quando ela retornou de Berlim:

“Após as Olimpíadas de Berlim, eu fui convidada para participar de um torneio, quando tive contato com a equipe japonesa, a melhor do mundo, e aprendi técnicas de treinamento. Na volta fui me dedicando ao desenvolvimento da minha natação, já muito baseado nos conhecimentos adquiridos e que me levaram aos recordes mundiais, em 39, próximos aos Jogos Olímpicos de 40, marcados meses depois para a Finlândia. Os jogos não se realizaram por causa da guerra. Foi uma grande frustração.

Eu sempre competia em outros estilos. No nado livre, integrava a equipe de revezamento e era campeã e recordista sul-americana no nado de costas.

Nessa época surgiram duas grandes nadadoras, minha irmã Sieglinda, como campeã sul-americana no nado de costas e Piedade Coutinho nas provas de nado livre. Havia também uma campeã argentina, Janete Campbel, que tirou a medalha de prata, em Berlim. Era um grupo de nadadoras que se destacavam e se não fosse a guerra, talvez tivessem tido maior destaque no cenário internacional.

A natação, como tudo, decaiu durante a guerra. Não havia mais interesse do público e, especialmente, do governo, mas se realizava provas e, eventualmente, um campeonato sul-americano, onde se destacaram elementos do Equador, Peru, Argentina e do Brasil. Nessa ocasião, já com uma tendência do Brasil a enviar tropas para a Europa, o Roosevelt, presidente dos EUA, usou o esporte e, principalmente, a natação como chamariz, isto é, conduzir a mentalidade para às Américas. Nós fomos competir nos EUA, indo de um lugar para o outro, em uma porção de cidades, onde estava tudo movimentado para a guerra.

A viagem para os EUA, em l942, foi o final da minha carreira. Nem havia como voltar, porque toda a navegação no Atlântico havia parado. Eventualmente, consegui encontrar um navio que me levasse através do Canal do Panamá, pelo Pacífico até lá embaixo no Chile e de trem até Buenos Aires. Depois, ainda, de trem até São Paulo, onde eu morava.

Ingressei, ao voltar, na profissão de Professora de Educação Física e não havendo mais nenhuma possibilidade de competições internacionais importantes, eu terminei minha carreira. Talvez eu teria conseguido nadar mais alguns anos, mas é preciso lembrar que na época era muito rigorosa a aplicação das leis no amadorismo e chegara o momento de eu iniciar a ganhar dinheiro, porque os meus pais não eram ricos.”

Nadadores têm carreira curta Maria Lenk explica com toda sua experiência e conhecimento, porque é curta a carreira de nadador:

“O apogeu do desenvolvimento físico está exatamente nessa fase de 30 anos. Nos outros esportes, também, os campeões estão no máximo de sua produtividade. Quando se trata de esportes profissionais, onde ganham bem, os atletas procuram prolongar sua carreira. Aí, procuram tirar proveito de usa experiência e competência técnica e já não mais tanto da sua resistência e capacidade física. É só olhar para o futebol nos dias de hoje. Está aí o Romário como exemplo. Vai lá, não corre muito, posta-se na frente do gol, espera receber a bola e usa sua técnica para fazer o gol.

Na natação é pior, porque é um esporte aeróbico, de atividade permanente e ininterrupta durante a prova, a condição física do nadador mais velho decai e ele fica automaticamente substituído por outro mais jovem. Acompanhando a evolução da natação mais recente, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, Atlanta e Sidnei, os nossos nadadores tiveram um surgir que alcançou o máximo, em Atlanta, e já, em Sidnei, não estavam nas mesmas condições e já encontraram novos adversários. Inclusive, aquele famoso nadador russo Popov, passou por essa decadência, em Sidnei, não conseguindo repetir o que tinha feito, em Atlanta, dado ao envelhecimento dele.”

 

Mestre de muitas gerações

A campeoníssima Maria Lenk teve fundamental importância no ensino e no crescimento da Educação Física, no Brasil:

“Ë, realmente, uma história diferente do que se possa imaginar. Basta se dizer que, em São Paulo, quando eu estava lá nos anos 37, 38, realizou-se o I Curso de Educação Física para Professoras. Havia curso de Educação Física, no Exército, para homens. A Escola de Educação Física do Exército abriu as portas a um grupo de civis de São Paulo, que lá aprenderam os fundamentos e levaram esses conhecimentos para São Paulo, onde fundaram uma escola civil, que abriu as portas, também, à mulher. Pela primeira vez formaram-se professoras de Educação Física, entre as quais eu estava incluída.

Na Escola de Educação Física do Exército havia um grupo de oficiais ligado ao governo Getúlio Vargas e que insistia que deveria haver uma Escola de Educação Física civil dentro da universidade. O major Inácio de Freitas Rolim, que mais tarde chegou a general, auxiliado por outros oficiais, insistiu na criação da Escola de Educação Física. A formação dos professores era feita na Escola de Educação Física do Exército e as professoras se formavam num curso à parte dirigido pelos militares, no Instituto de Educação.

No Instituto de Educação, eu já fui aproveitada como professora. Eu tenho o orgulho de ser cofundadora da primeira Escola Civil de Educação Física da América do Sul, dentro da Universidade do Brasil, depois Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá fiz carreira e terminei como Diretora e Professora Emérita no final da minha carreira”.

 

Os grandes nomes da natação brasileira

Maria Lenk, com toda sua experiência e sabedoria, destacou os principais nomes da natação brasileira:

“No decorrer dos anos, houve uma série deles. Alguns eu menciono no meu livro. Não quero ser injusta, porque alguns eu posso esquecer. Mas, posso citar Okamoto, Manoel dos Santos, Silvio Fiolo, Ricardo Prado, Gustavo Borges, que é minha cria e pelo qual tenho muito carinho, Xuxa, Patrícia Amorim. Silvio Kelly foi outro grande nadador. Esses foram nadadores que se destacaram, mas nós nunca tivemos grupos maiores como nos EUA e na Austrália. Eu não sei a razão disso, mas talvez, porque haja muito pouco apoio para nossa natação, apesar do esforço da CBDA que procura fazer tudo o que é possível para criar, no âmbito nacional, um agrupamento maior. Poderíamos conseguir muito mais, se fizéssemos um trabalho de base de grandes proporções, a partir do ensino simples da natação e depois, sucessivamente, o encaminhamento dos atuais talentos que surgem no meio desse trabalho. É preciso saber que talento é um entre cem. Mas, eles quando são descobertos precisam de apoio, para poderem crescer. Ainda mais, que a natação hoje em dia é tão solicitante, levando a horas e horas de treinamento. É uma atividade quase exclusiva, que não pode dispensar ajuda econômica também.

Muitos nomes como os de Lígia Cordovil, Piedade Coutinho, Edith Groba foram esquecidos. O que acontece é que a mídia no esporte se concentra muito no futebol e aí eu fico até surpresa, como de vez em quando se lembram de mim.

Eu tenho hoje uma grande amiga na pessoa de Marlene Mendes. Ela foi campeã quando jovem. Não foi aos Jogos Olímpicos, porque o pai não deixou, devido àqueles preconceitos da época. Foi co-fundadora da Associação Brasileira de Master de Natação e sempre diretora até hoje e que deveria ser citada nesse conjunto. É campeã brasileira, sul-americana e mundial de master. Ela continua nadando todos os dias, como eu também.”

Os longos anos dedicados ao esporte, especialmente a natação, credenciam essa notável mulher e desportista a apontar alguns caminhos para o Brasil se tornar um país de vanguarda no campo esportivo.

 

O que fazer para desenvolver o esporte no Brasil

“A prática esportiva é muito entregue as pessoas, individualmente, ligadas a clubes. Isso não divulga e não espalha a prática esportiva no país, como deveria ser. Até mesmo a Educação Física nas escolas decresceu. É um trabalho de base que não pode ficar restrito a clubes, os quais enfrentam dificuldades como as federações e as confederações. Essas entidades colhem muito pouco em proporção ao que deveria ser feito”.

  • Maria Lenk nada o estilo borboleta, que a consagrou mundialmente, culminando com dois recordes mundiais.

Foto 01

  • Após seus extraordinários feitos, Maria Lenk é recebida na Escola Nacional de Educação Física da Universidade do Brasil, sob a direção do Major Ignácio de Freitas Rolim. Maria Lenk é cumprimentada pelo presidente Getúlio Vargas, quando foi apresentada como integrante do corpo docente da ENEF.

Foto 02

  • Equipe brasileira campeã do VII Campeonato Sul-americano realizado, em Viña Del Mar, em fevereiro de 1941. Na primeira fila da esquerda para direita, Maria Lenk é a quinta. Os dois últimos são os famosos técnicos Sato e Luiz Cardoso de Castro, Cachimbau.

Foto 03

  • Em 15 de janeiro de 1942, Maria Lenk encerra a sua brilhante carreira. Ela aparece entre as campeãs norte-americanas Paty Aspinal e Helen Rains, após tê-las vencido na piscina da Women Swimming Association de New York.

Foto 04

  • Maria Lenk ao lado de suas inúmeras medalhas e troféus conquistados ao longo de sua extraordinária trajetória na natação.

Foto 05

  • Na piscina do Copacabana, em l956, a grande Maria Lenk ensina às futuras gerações.

Foto 06

  • Maria Lenk, em junho de l981, após a travessia do Leme ao Forte de Copacabana, com o Dr. Rogério Carneiro, então presidente da FARJ. “Agora pratico a natação para combater a velhice”- Maria Lenk.

Foto 07

  • A carinhosa dedicatória de Maria Lenk no livro “Braçadas e Abraços” de sua autoria. Um presente que aguardarei para sempre.

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