Agassi – Autobiografia

Por Marcos Eduardo Neves

Olá, amigos do Lido com Esporte! Como nem só de futebol vive o Brasil, muito menos a literatura esportiva, descalço agora as chuteiras para colocar o tênis em dia. O assunto é um dos melhores livros de esporte que li em toda a minha vida – e olha que não foram poucos…

Lançado em 2010 pela Globo Livros, AGASSI – AUTOBIOGRAFIA é uma obra de tirar o fôlego. Aliás, de ler num fôlego só. Sem papas na língua ou receio de manchar sua imagem, o jogador fala abertamente sobre sua carreira e vida pessoal. Inclusive, o uso de drogas.

Escrito de forma que mais parece um monólogo, o texto começa com o astro demonstrando as dores que sente em 2006 – ano em que jogou seu último Aberto, aos 36 anos de idade. Andre Agassi conta que nasceu com um problema na vértebra da parte inferior da coluna, acumulou duas hérnias de disco e um osso não parava de crescer, o que lhe pressionava ainda mais os nervos. Seu corpo lhe implorava para deixar o esporte, e injeções de cortisona eram a única alternativa para calar a dor, ainda que por breves momentos.

Após a breve introdução, um arrasador Capítulo 1. Nele, Agassi surpreende mais uma vez: “Detesto jogar tênis, detesto de todo o meu coração, mas continuo jogando, batendo bola todas as manhãs e todas as tardes, porque não tenho escolha”. É o pensamento que carrega desde os 7 anos de idade, quando seu pai, frustrado por não ter sido tenista profissional, sequer perguntou se o filho pretendia ser: obrigou-o, na marra, a aprender tênis.

Aprender, não. O que seu pai fazia era pior do que bullying. A ira do garoto, a princípio, se concentrava no “dragão”, apelido que deu à máquina que lhe lançava bolas a 170 quilômetros por hora. “Meu pai diz que, se eu rebater 2.500 bolas por dia, terei rebatido 17.500 numa semana. Ao final do ano, dá quase 1 milhão de bolas. (…) Uma criança que consegue bater 1 milhão de bolas por ano será imbatível.”

O menino ficava em pânico, pois não adiantava rebater as bolas: tinha que ser mais rápido do que o dragão. Tinha de derrotar o dragão. Seu pai chegava a espumar de raiva caso o filho rebatesse uma bola na rede. Prisioneiro em sua própria casa, ou melhor, quadra, o jovem cresceu sem poder escolher seu futuro. A única coisa que aprendeu foi jogar tênis. Até num colégio interno seu pai o colocou, longe de tudo e de todos. Colégio, não: escola de tênis. Não à toa, Agassi se mostrou desde cedo um rebelde. No seu caso, rebelde com causa.

O ódio mortal de Boris Becker, os pegas com Pete Sampras, a admiração pelo então iniciante Roger Federer, tudo está na autobiografia. Assim como seu casamento com a beldade Brooke Shields, que o levou aos piores anos da carreira; e a paixão por Steffi Graf, que o reconduziu ao auge tempos mais tarde. Uma passagem curiosa: em casa, quando ainda casado com a estrela de “A Lagoa Azul”, Shields certa vez anexou uma foto de uma moça na geladeira e avisou o marido: “Vou malhar forte para ficar com as pernas assim”. Eram as pernas de Graf.

Na primeira e única vez que venceu o torneio de Wimbledon, em 1992, depois de tamanha emoção, Agassi pegou o telefone e discou para o pai, que houvera ficado em Las Vegas. “Pai? Sou eu! Está me ouvindo? O que achou?”. Após segundos de tenso silêncio, ouviu: “Você não tinha nada que perder aquele quarto set”.

Por histórias como essa – aliás, um sem-fim de histórias fantásticas –, o livro é um desabafo de 500 páginas que não dão vontade de parar de ler. AGASSI – AUTOBIOGRAFIA, repito, é um dos maiores livros de esporte que li. Minto: é dos melhores livros que li. Isso, que não sou grande entusiasta de tênis. Ainda assim, recomendo, e muito, essa leitura.

Até a próxima.

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