Carlos Alberto, o Primeiro Goleiro Olímpico do Brasil – Parte I

Por José Rezende

O ex-aluno do Colégio Militar, hoje Brigadeiro Carlos Alberto Martins Cavalheiro, nos recebeu gentilmente em sua residência. A conversa descontraída nos levou a uma maravilhosa viagem pelo mundo do futebol. O papo foi tão bom que perdemos a noção da hora:

“Eu era aluno do Colégio Militar ali, na Barão Mesquita, e já jogava de goleiro do colégio. Em 1948, com dezesseis anos de idade, eu fui para o Vasco já começando a jogar no juvenil. Nosso treinador era o Oto Glória que ao mesmo tempo era treinador de basquete e do futebol do juvenil.

 

O primeiro título 

Tive sorte porque no final do ano havia o Torneio Paulo Goulart e o treinador da seleção carioca era o Oto Vieira, que era do Fluminense. O tricolor tinha sido o campeão e não sei porque jogaram os dez do Fluminense comigo no gol. Também não sei porque o Veludo ficou na minha reserva. Fomos campeões do Torneio Paulo Goulart e em janeiro houve uma convocação para a Seleção Brasileira jogar o Sul-Americano, no Chile. Fui como reserva do Cabeção, que era mais velho do que eu e jogava no aspirante do Corinthians. Fomos campeões sul-americanos e completei dezessete anos nessa viagem. Então eu tive sorte no início de carreira. Dali em diante tudo continuou bem.

Alguns companheiros do juvenil do Vasco chegaram a jogar nos aspirantes. No time titular ninguém. Não ganhei absolutamente nada no juvenil do Vasco. A equipe da época era o Fluminense. Tanto que vários chegaram à equipe titular como Lafaiete, Pinheiro, Tite, Robson. O Vasco naquela época não ganhava nada.

 

As olimpíadas de 52

O Brasil era muito prejudicado em Olimpíadas por vários motivos. O principal deles é que nós éramos juvenis ou aspirantes para jogar com países do leste europeu. A equipe era boa e vários foram titulares da seleção brasileira como Zózimo, Vavá e Evaristo. Só que olimpíada era mata-mata, perdeu vai embora. Nós ganhamos de Luxemburgo, vencemos a Holanda, o terceiro jogo foi contra a Alemanha Ocidental campeã dois anos depois na Copa de 54, na Suíça. Era aquela mesma equipe de Frittz Walter, que nos ganhou na prorrogação. Estávamos ganhando de 2 a 1 e eles empataram no último chute do jogo.

Naquela ocasião era muito difícil uma equipe olímpica brasileira no futebol fazer qualquer coisa de aproveitável. Assisti alguns jogos da Hungria de Puskas. Era um timaço. Agora veja bem o que eu vou lhe dizer: nós achávamos que na final de 54, a Alemanha tinha grande chance de ganhar o jogo. Ela tinha também um time muito bom.

 

Aprendi com dois grandes mestres

Quando retornei já tinha estourado a idade de juvenil, onde eu joguei durante quatro anos 48, 49, 50 e 51. Passei a jogar nos aspirantes e fiquei de 52 a 55. Peguei como técnicos Gentil Cardoso, Flávio Costa, Martim Francisco e Gradim. Nesse meio tempo, disputei na equipe titular alguns joguinhos. Antes do campeonato, disputava-se o Torneio Municipal e eu joguei algumas partidas. Existiam três goleiros no Vasco: Barbosa, Ernani e eu. O Barqueta já tinha ido embora.

Meu aprendizado foi muito grande porque convivi com dois grandes goleiros. Barbosa foi pra mim o maior de todos no Brasil. Ele modificou a maneira do goleiro jogar no Brasil. O goleiro antigamente tinha a mania de ficar muito junto à linha do gol. Ele não participava com freqüência das jogadas quando eram fora da pequena área. Barbosa, no meu entendimento, foi o primeiro a dominar a grande área. O goleiro passou a utilizar um espaço maior, a participar mais do jogo.

 

Entre os meus bons treinadores, o melhor foi o Martim

Veja bem, eu nunca tive problema nenhum com treinador. Pelo contrário, eu não podia treinar todos os dias. Eu treinava lá na Aeronáutica como se treinasse no clube. Tinha gente lá que me treinava. Cada treinador tem a sua personalidade. A maneira de falar, de agir, de conversar com o jogador. O Gentil Cardoso era uma pessoa muito querida pelos jogadores, porque ele falava a linguagem do jogador. Ele recuperou o “Expresso da Vitória”. Em 52 ele foi campeão com a mesma equipe que o Vasco ia dispensar. Gentil tinha um jeitinho todo especial de melhorar o astral do jogador. E isso claro se reflete na parte técnica. Já o Flávio Costa era mais disciplinador. O Flávio, inclusive, foi aluno da Escola Militar de Realengo e o irmão dele depois foi general. Ele tinha uma linhagem, vamos dizer, mais militar. Em comparação ao Gentil, era uma maneira diferente de agir. Era mais centralizador. Já o Martim Francisco era completamente diferente dos dois. Ele era formado em Psicologia, a qual ele aplicava muito bem no trato com os jogadores. Ele era muito pragmático ao falar com os jogadores. Se eu tivesse que escolher algum, eu escolheria o Martim. Só ver os episódios que aconteceram no time do Vasco que foi campeão, fez aquela excursão maravilhosa, quando ganhamos do Barcelona de 7 a 2, do Benfica de 5 a 1, vencendo do Real Madri na final do Torneio de Paris. Isso vale tanto quanto o campeonato. Ele dirigia de acordo com os adversários. Eu o elegeria como diferente dos outros dois, apesar do outros serem muito bons.

O próprio Martim formou a base do time campeão de 1956. Ele foi contratado em 55 e na véspera de uma excursão a Europa. Eu não fui e viajaram o Ernani e o Hélio. Nessa excursão que não foi muito boa, ele formou uma ideia sobre os jogadores que tinha na mão. Alguns foram dispensados e os que ficaram eram todos muito bons. Só para ter uma ideia na Copa de 58, na Suécia, foram convocados eu e mais três Castilho, Gilmar e Ernani. Claro, eu era o mais fraco. Os dois que foram eram melhores do que eu: Castilho e Gilmar. Veja como o time do Vasco era bom. Eu fui convocado na Portuguesa de Desportos, mas seria no Vasco. Além de mim foram chamados Belini, Orlando, Vavá e Almir. Dois não foram convocados, Sabará e Valter, porque houve um probleminha na excursão da Seleção Brasileira. Valter era o nosso melhor jogador, com todo respeito aos outros. Quais eram os outros: Pinga foi titular da seleção brasileira; Laerte era um excelente meio de campo; Coronel na lateral esquerda foi depois da Seleção Brasileira no sul-americano de 59; e o Silvio Parodi era um bom ponta. Essa equipe ganhou 56 e 58 e perdeu o campeonato de 57, no meu entendimento, por um motivo: perdemos pontos para times pequenos. Vencemos os grandes, perdendo pontos apenas para o Flamengo, se não me engano.

Na Pequena Copa do Mundo, na Venezuela, em 56, jogamos contra a Roma, o Real Madri e o Porto e fomos campeões.

Na excursão de 57, eu já havia recebido a permissão do Ministério da Aeronáutica para a excursão toda. Mas naquele tempo não havia relações diplomáticas entre o Brasil e União Soviética. Naturalmente se lembraram disso lá no Ministério e na véspera recebi um telefonema de quem tinha que receber para não ir a União Soviética. Eu deveria voltar de onde eu estava. Como foram os últimos jogos, eu voltei de Lisboa depois do jogo contra o Benfica, o qual vencemos por 5 a 1. O Vasco pediu emprestado o goleiro Carlos Gomes para ficar na reserva do Hélio.

A excursão foi muito boa. Vencemos o Real Madri na final do Torneio de Paris, na estréia do Brito. O Viana se machucou e o Belini estava na Seleção Brasileira. O Brito entrou para marcar o Di Stéfano e saiu-se bem. Eu gostava muito do Brito porque eu o introduzi no futebol do Vasco. O irmão, o Décio Brito, foi jogar depois no Madureira, no Santos, que era lateral esquerdo. Hoje mora nos Estrados Unidos e nunca mais saiu de lá.

Teve uma briga sem maiores conseqüências e o Pinga, nosso capitão recebeu a taça da Farah Diba, mulher do Xá, do Irã. Perdemos o avião para La Coruña e tivemos de ir de ônibus. Chegamos no mesmo dia e jogamos com o Atlético de Bilbao em disputa da Taça Teresa Herrera. Ganhamos o jogo mesmo com o time meio sonolento.

Sempre consegui conciliar a minha vida como jogador com a carreira militar. Hoje existem jogos quarta, quinta, o ano inteiro. Antigamente não era assim, os jogos eram aos domingos. Às vezes antecipavam algum jogo para sábado. Aqui no Vasco não existia viagem, porque o mais longe que nós íamos era jogar contra o Canto do Rio, em Niterói. O resto era Maracanã ou São Januário.

 

  • Em 1949, por ocasião do Torneio Início de juvenis, Carlos Alberto integra o time do Vasco da Gama: em pé, Djalma, Carlos Alberto, Roberto, Jorge, Orlando e Nelson; agachados, Walter, Vasconcelos, Júlio, Wilson e Walkírio.

F 01 - Carlos Alberto - time juvenil do Vasco

 

  • Em 1952, na seleção olímpica, Carlos Alberto no vestiário com Jansen e o jornalista Augusto Rodrigues.

F 02 - 1952 19 jun - Seleção olímpica - Jansen,  jornalista Augusto Rodrigues  e Carlos Alberto

 

  • Em 1955, antes de um treino no estádio de São Januário, Carlos Açberto se seus companheiros Ernani, Barbosa, Hélio e Vitor Gonzales.

Treino do Vasco, 9 negativos 6x6 cm PB acetato

 

  • No empate de 1 a 1 diante do Flamengo, no turno do campeonato carioca de 1956, Carlos Alberto defende o pênalti, por ele mesmo praticado, batido por Evaristo.

F 04 - 1956 - Vasco x Fla - defende pênalti

 

  • Sob o comando de Martim Francisco, seu técnico preferido, Carlos Alberto se sagrou campeão carioca de 1956: em pé, Carlos Alberto, Paulinho, Belini, Laerte, Orlando e Coronel; agachados, Lierte, Vavá, Livinho, Valter e Pinga.

F 05 - 1956 - Carlos Alberto - time campeão 1956

 

  • Campeão com o Vasco da Taça Teresa Herrera, em 1957, Carlos Alberto e seus companheiros erguem o valioso troféu.

F 06 - 1957 - Vasco - vencedor da Taça Tereza Herrera-  1957 - Carlos Alberto e companheiros erguem a taça

 

  • Antes da partida frente ao Dínamo, de Moscou, em dezembro de 1957, no Maracanã, Carlos Alberto cumprimenta seu colega de posição Iashin, o famoso “Aranha Negra”. Vasco e Dínamo empataram de 1 a 1.

F 07 - 1957 - 4 dez - Vasco 1 x Dínamo 1  - CAlberto e  Yashin - amistoso Maracanã

 

  • Na seleção brasileira, Carlos Alberto e seus colegas de posição Castilho, Ernani e Gilmar.

F 08 - CACavalheiro - Castilho, CAlberto, Ernani e  Gilmar

 

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