Carlos Alberto, o Primeiro Goleiro Olímpico do Brasil – Parte II

Por José Rezende

A ida para o futebol paulista

Quando eu fui para a Portuguesa de Desportos, no início foi mais fácil por causa do horário do expediente de lá que era só à tarde. Quando eu fui jogar na Portuguesa existiam praticamente as equipes da capital como o Nacional, o Ypiranga. Depois é que entraram os times do interior como o Botafogo e o Comercial de Ribeirão Preto, o América de Rio Preto, os dois de Campinas, Guarani e Ponte Preta. Uma vez ou outra tinha um jogo na quarta-feira e então dava para conciliar.

Na Portuguesa de Desportos joguei integralmente as temporadas de 58 e 59 como titular. Quando chegou em 60, eu tive que ir para as olimpíadas de Roma, mas só que naquele ano houve um pré-olímpico onde se classificavam apenas três dos dez que disputavam as eliminatórias.

Jogamos contra a Colômbia, um jogo aqui e outro em Bogotá. No Maracanã demos de sete e perdemos o jogo lá. A competição foi um pouco longa e o campeonato paulista já tinha começado. Quando eu voltei das olimpíadas já jogava o Félix que era o meu reserva. Ele tinha sido emprestado ao Nacional lá de São Paulo, havia retornado e estava atuando. Eu aí, no final do ano, resolvi parar.

Estava com 29 anos. Sempre participei de todos os jogos dos clubes nas temporadas em que estivesse jogando. Eu lembro que só não joguei um jogo do Vasco contra o Botafogo, por causa da tal de gripe asiática. Não jogaram cinco titulares, inclusive o Coronel, que foi substituído pelo Cleber reserva do Paulinho na lateral direita. Estou falando isso porque o Garrincha deitou e rolou.

Joguei dez anos no Vasco, jogando todos os jogos. Nos dois anos e meio na Portuguesa também joguei em todos os jogos.

Eu gostei muito de ter ido para a Portuguesa, porque o Flávio Costa era o treinador. Ele descobriu que eu tinha sido transferido. À noite ligou para minha casa, falando para eu ir jogar na Portuguesa. Eu ponderei que ele tinha o Cabeção. Ele me respondeu: “Tive uma briguinha com ele e ele vai voltar para o Corinthians”.

Fui para lá num momento em que a Portuguesa cresceu o patrimônio. O estádio era chamado de Ilha da Madeira, porque era de madeira e não existia a marginal esquerda do Tietê, onde está hoje a Portuguesa. Para nós irmos para a Portuguesa, tínhamos que ir por dentro. Ali era cheio de lagoas e o acesso era por uma ponte. Em 1958, a Prefeitura autorizou o aterramento e ali o clube poderia construir as suas próximas instalações. Eram caminhões entrando dia e noite. Hoje a Portuguesa está no local mais próximo do centro da cidade em relação aos outros clubes.

Gostei muito de lá. Mais tarde já como Brigadeiro fui servir em São Paulo e recebi uma homenagem da Portuguesa. O pessoal sempre foi muito atencioso comigo. A colônia portuguesa sempre foi muito boa. Eu sou filho de português. Minha mulher tem dupla nacionalidade, meus filhos também têm dupla nacionalidade. Portugal está no meu coração.

No Rio São Paulo de 58 enfrentamos o Vasco. Levamos uma goleada. A gente fica chateado por perder o jogo, mas por outro lado estava perdendo para meus colegas com os quais jogava meses antes. Não me causou nenhum problema porque eu sempre levo para o lado positivo às coisas negativas.

Depois do quinto gol disseram para mim: “Tenente não vamos fazer mais gols”. Realmente ficaram trocando bola. Existia uma grande amizade. Até bem pouco eu sempre que podia conversar com eles, eu conversava. Sabará, por exemplo, tinha sido internado no Hospital Cardoso Fontes e estava lá como indigente. O Belini me telefonou de São Paulo e pediu para eu ver isso. Na minha família tem muitos médicos. Eu falei com uma tia, médica do Cardoso Fontes, e ela descobriu o Sabará. Quando eu servir em Brasília, o filho do Laerte era Cabo da Aeronáutica, em Porto Alegre, e queria ser transferido para Brasília. Eu consegui a transferência do filho do Laerte.

Em 1960, a Portuguesa foi vice-campeão paulista. Só perdeu para o Santos e no último jogo para o Noroeste, em Bauru. Já estava jogando o Félix. Se a Portuguesa tivesse vencido o Noroeste seria campeão com um ponto na frente do Santos.

A vida como dirigente

A minha participação como dirigente do Vasco foi muito boa. Primeiro porque estava no meu clube; em segundo lugar eu estava tendo a boa vontade de todos, a começar pelo Agatirno, presidente do clube, que sempre foi muito gentil comigo, sempre me deu todo o apoio; em terceiro porque a gente conseguiu montar uma equipe que acabou campeã brasileira em 1974, com todas as dificuldades que os clubes têm até hoje, sem ter dinheiro para contratar. O último título tinha sido em 70, eu não estava no clube, e depois não conseguiu mais nada. Houve uma saída de jogadores. Eu me lembro que quando entrei tive que dar passe livre a dezoito jogadores. Se não me falha a memória eram cinquenta e um contratados. Ficaram trinta e três. Muito ainda, mas de qualquer maneira ninguém saiu aborrecido, todo mundo com seu dinheirinho.

Naquela equipe juvenil atuavam vários jogadores que foram depois titulares no Vasco: Mazaropi, Gaúcho, Fumanchu, Wilsinho, Roberto. Claro que o Roberto era a estrela dessa equipe, porque ele começou a despontar muito bem. A equipe juvenil do Vasco alternava com o Flamengo. Um ano era o Vasco campeão, o Flamengo no outro. A gente até brincava, um ano do Vasco, um ano do Flamengo.

Roberto despontava como artilheiro. Já era grande, a altura que tem hoje. A gente nota indo aos jogos aqueles que mais se destacam. No meu entendimento seria ele o primeiro a chegar lá.

O Roberto é uma pessoa muito boa. Aqueles que o conhecem sabem que ele é muito dado às pessoas, ele conversa com as pessoas com muita educação. Isso facilita o entendimento dele com os outros. Haja vista que ele é Deputado Estadual e ser eleito e reeleito é preciso ter muita bossa. A caminhada dele para presidente do clube foi uma coisa absolutamente normal. Se ele não fosse deputado estadual talvez fosse mais difícil. Ele se manteve conhecido de todos. Ele não se desligou da parte esportiva com os seus projetos. Ele está num lugar difícil de um jogador chegar ainda mais em se tratando de um clube com a força do Vasco da Gama.

Tive muito apoio no clube tanto quando fui vice-presidente de futebol, tanto como hoje que sou presidente do Conselho de Beneméritos. São todos meus amigos. O Vasco da Gama participa da minha vida e participa de uma maneira muito boa.

 

  • Contratado pela Portuguesa de Desportos, em 1958, Carlos Alberto foi capa da revista Gazeta Esportiva.

F 01 - Carlos Alberto Cavalheiro na PDesportos - capa da Gazeta Esportiva

  • Carlos Alberto defende diante de Dida, atacante rubro-negro. Na partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo de 1958, o Flamengo venceu por 4 a 2.

F 02 - Carlos Alberto - PDesportos 2 x Flamengo 4 - TRSP 1958

  • Equipe da Portuguesa de Desportos que ganhou do Santos por 3 a 2, no Torneio Rio-São Paulo de 1958: em pé, Carlos Alberto, Djalma Santos, Bauer, Odorico, Mário Ferreira e Valter; Adamastor, Ipojucan, Alfeu, Ocimar e De Carlos.

F 03 - Carlos Alberto - PDesportos 3 x Santos 2 - TRSP  1958

 

  • Uma das formações da Portuguesa de Desportos na temporada de 1960 e não como está na foto.

F 04 - 1960 - CACavalheiro - PDesportos com  escalação

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