Cartas do Tetra – As Histórias de Cruzeiro, Corinthians e Fluminense no Ano Celeste de 2014

Por Marcos Eduardo Neves

Quando expliquei a meu filho a tragédia ocorrida na final do Brasileiro de 1992, disse-lhe que, assim que parte do público que superlotava a arquibancada despencou na antiga geral do Maracanã, dois amigos meus, irmãos de sangue, ficaram tensos o jogo inteiro: perdidos em meio à multidão rubro-negra, um achava que o outro tinha caído. Aos 12 anos de idade, rápido e sagaz, meu moleque me perguntou, mas, pai, por que eles não pegaram o celular e se ligaram? Simples, filho, não havia celular naquela época. Como assim, não havia celular?!!! Por um instante, meu filho me julgou pré-histórico.

O que seguramente pensou vale hoje para milhões de jovens. Poucos têm noção de uma tradição que desde o Brasil Colônia nossas famílias nos perpassaram: o costume de trocar cartas.

Permutas de correspondências revelam muito da nossa história. E no caso de “Cartas do Tetra – As histórias de Cruzeiro, Corinthians e Fluminense no ano celeste de 2014” (Vilarejo Metaeditora), os e-mails trocados entre o cruzeirense Anderson Olivieri, o corintiano Fabrício Junqueira e o tricolor Paulo-Roberto Andel desvendam o que de mais relevante houve no futebol brasileiro ao longo do ano passado.

A arrojada iniciativa dessa troca de mensagens é um passo importante na literatura esportiva do nosso País. Uma tríade de torcedores de clubes vitoriosos de três Estados do Brasil salta na frente da concorrência para eternizar nas Letras o que os palcos sagrados e seus respectivos protagonistas escreveram para a antologia do esporte nacional.

Em paralelo à bola que rola há discussões políticas, lembranças de acontecimentos sociais, citações de personagens históricos do cinema e – perdão, futebol, pela ligeira traição – flertes com outras paixões, como a música. O tricolor, por exemplo, alivia-se de uma decepção na estridência da guitarra floydiana de David Gilmour. O cruzeirense, acredite, trocou a peleja da consagração pela voz do lendário Paul McCartney.

No mais, futebol na veia o tempo inteiro. O passado presente e o futuro se passando. Os três amigos constroem História a traços vivos. Sem se esquecer de mazelas, como a convocação de jogadores para a seleção em meio ao campeonato, e dúvidas pertinentes: a culpa da violência extracampo se generaliza nas organizadas?

Tudo contado ou discutido de forma leve, numa leitura que flui como uma ida ao estádio. Jogos históricos de outrora são rememorados; competições paralelas, enfatizadas; palcos novos, decupados.

É-se possível visualizar cenas hilárias ou dramáticas – a depender da ótica. Como a impagável saga de um ‘chinês azul’ que rumou de Brasília a BH para assistir à final da Copa do Brasil; a relação de amor e ódio entre um carioca e o artilheiro do seu time; e o curioso sentimento do fiel torcedor que não sabe se lamenta a perda da chance de lutar pelo título ou comemora a classificação à Libertadores, o que parece pouco para quem havia pouco ganhara o mundo.

Tudo isso escrito de forma a nos conquistar em definitivo. Seja pela objetividade cruzeirense dos textos, a garra corintiana da ideia inédita ou a fidalguia tricolor da troca de cartas cordialmente humanas e reveladoras.

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