Casagrande e seus Demônios

Por Marcos Eduardo Neves

De certa forma, o livro “Casagrande e seus demônios”, assinado pelo próprio junto ao jornalista Gilvan Ribeiro, honra o sobrenome do protagonista da história. Trata-se de uma viagem a uma verdadeira mansão, na realidade um templo underground da alma. Menos um livro de esporte; mais uma admissão. Em vez de lição de vida, lição da vida.

Justamente neste ponto a obra se difere, por exemplo, de outra lançada pela mesma editora – por sinal, apresentada por mim na última coluna – a GloboLivros: a biografia de Andre Agassi. Aquele livro é uma espécie de desabafo; este, uma confissão.

O começo é arrasador. De antemão, um presente: o prefácio de Marcelo Rubens Paiva. Seguido de um drama exposto de forma nua e crua, um tapa na cara do leitor mais careta, aquele que acredita que o mundo do esporte é apenas redoma de atletas. Atletas, sim, mas homens em primeiro lugar. Com todos os prós e contras. Principalmente a vulnerabilidade. Não necessariamente à fama.

A questão das drogas é ancestral. Talvez bíblica. A maçã de Eva foi o primeiro fruto proibido. Provocou temor, dúvida, rebeldia. Até hoje, o medo e a aventura afastam ou levam qualquer fraco de espírito a esse submundo.

Casagrande parecia imortal. Jovem, forte, de boa classe social, irreverente, esportista de sucesso, goleador oportunista. E revolucionário. Veia rock n’ roll. Ideais políticos. Rebelde com causas.

Sua viagem ao inferno é relatada no abre-alas do desfile fantasmagórico que o livro apresenta. Da prisão por porte de cocaína no auge da carreira, em plena Democracia Corintiana, passou a enxergar demônios espalhados pelos cômodos da casa onde (sobre)vivia, na zona oeste paulistana. Pesadelo paralelo experimentava nos poros, entregue a porções diárias de heroína, mergulhos no pó e coquetéis de tranquilizantes com tequila. Faísca à beira de uma explosão.

Viagens em busca de prováveis almas penadas que hospedaram o apartamento, casa destruída, homem ruído, apesar de uma instituição que confiava em seu talento não mais nos campos, e sim nos microfones, como comentarista. Padre convocado, crucifixo à mão, boa hora para uma retirada estratégica, num hotel perto do trabalho, a TV Globo. Nisso, um rolé e capota o condutor bêbedo e drogado, sem sentidos em virtude da debilidade propiciada, fossem poucos os motivos relatados, também pela falta de comida e água. Saldo? Noiva com vértebra fratura na coluna; dependente três dias sedado.

O que as drogas podem fazer com qualquer mortal, Casagrande explica. E revela de peito aberto com riqueza de detalhes, minúcia digna dos passes que ganhava do Dr. Sócrates momentos antes de correr para a Fiel.

É verdade que da segunda metade para o fim, o livro, não que deixe a desejar, mas freia o sentimento – ou sofrimento – que àquela altura já em pandarecos deixou os nervos do leitor. Normal. Afinal, como jogador Casagrande cumpriu com o seu papel, porém nunca foi extraclasse, um virtuose da pelota. Era bom, mas longe de ser craque. Seu diferencial era sua postura em relação aos demais, o posicionamento, a Inteligência. E a arrogância juvenil de sentir-se super-herói inalcançável, que, por ironia macabra do destino, permitiu a sedução de Sansão por meio da dalilesca criptonita da realidade, aquela que antes de matar nivela o doente ao patamar de humano, mas não mais ser.

Um livro tocante. Uma história forte. Um gol de bate-pronto, mais um, do atacante que nas décadas de 80 e 90 suou as camisas de Corinthians, Caldense, São Paulo, Porto, Ascoli, Torino e Flamengo, além da seleção brasileira, até mesmo num Mundial.