Fausto, a “Maravilha Negra”

Por José Rezende

Quando, na primeira quinzena de julho de 1930, a delegação brasileira chegou a Montevidéu a bordo do navio Conte Verde, desembarcava com seus companheiros o codoense Fausto dos Santos. Na capital uruguaia aquele negro esguio encantaria a imprensa e a torcida uruguaias com seu extraordinário futebol.

A cidade de Codó fica no interior do Maranhão ao longo da Estrada de Ferro São Luís-Terezina. Lá nasceu Fausto dos Santos em 28 de fevereiro de 1905. As dificuldades enfrentadas pela família numa região pobre reforçavam o desejo de vir para o Rio de Janeiro.

Com vinte e um anos, em 1926, os torcedores cariocas passaram a conhecer o jogador Fausto. O meia-direita do time amador do Bangu, nos campeonatos cariocas de 1926 e 27, mostrava que era bom de bola. Porém era mais conhecido pela sua vida boêmia.

Tinoco, um de seus muitos amigos de jornadas noturnas, jogava no Vasco da Gama e sempre insistia para Fausto vestir a camisa preta com a cruz branca do lado esquerdo do peito do clube de São Januário. Os principais argumentos eram que no Vasco ele ganharia fama e Bangu era muito distante. Em 1928, Fausto cedeu aos apelos do companheiro e se transferiu para o Vasco.

No ano seguinte, o Vasco sob o comando do inglês Harry Walfare, ex-jogador do Fluminense, vencia o Torneio Início e o Campeonato Carioca. Vasco e América decidiram o título numa série melhor de três. Fausto, agora de centromédio, era o armador das jogadas e principal referência do esquema tático vascaíno. Após dois empates, 0 a 0 e 1 a 1, o Vasco goleou o América por 5 a 1 e se sagrou campeão carioca de 1929. O inesquecível time campeão jogava com Jaguaré, Brilhante e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Paschoal, Oitenta e Quatro, Russinho, Mário Matos e Santana.

As grandes atuações de Fausto o levaram às seleções carioca e brasileira. No mesmo ano do título carioca, várias equipes estrangeiras estiveram no Brasil. Entre elas o Ferencvaros da Hungria. No dia 10 de julho de 1929, no Estádio do Fluminense, a seleção brasileira vencia os húngaros por 2 a 0 gols de Petronilho e Feitiço. Fausto vestia pela primeira vez a camisa da seleção.

A CBD preparava-se para o Campeonato Mundial no ano seguinte, no Uruguai. A comissão técnica da seleção era exclusivamente de cariocas, fato que gerou protestos da Associação Paulista de Esportes Atléticos. A reivindicação era a inclusão de pelo menos um paulista na comissão. Como a CBD manteve seu ponto de vista, a APEA não cedeu seus jogadores. O único paulista a integrar a seleção foi Araken Patuska em litígio com o Santos.

Fausto seguiu com a delegação brasileira e na capital uruguaia atuou contra a Iugoslávia e a Bolívia. Suas duas notáveis exibições extasiaram a crônica esportiva e o público uruguaios. Os jornais estampavam manchetes referindo-se a Fausto como a “Maravilha Negra”.

O Brasil perdeu para a Iugoslávia por 2 a 1 e venceu a Bolívia por 4 a 0. Porém, a vitória iugoslava diante dos bolivianos por 4 a 0 tirou o Brasil do mundial. Apesar da eliminação brasileira, o futebol de Fausto estava consagrado.

Em 5 de setembro de 1931, na véspera da partida contra o Uruguai, no campo do Fluminense, pela Copa Rio Branco, Fausto recebeu a notícia do próprio médico da CBD que não jogaria. Uma forte gripe o deixara de cama por vários dias no dormitório de São Januário. Eram os primeiros sintomas da tuberculose. A vida boêmia deixava suas marcas.

Seu futebol continuava o mesmo, mas as frequentes gripes impediam que suas participações nos jogos não fossem constantes. Em 1931, o Vasco realizou uma excursão a Europa, jogando na Espanha e em Portugal. A Europa conheceu de perto o futebol da “Maravilha Negra”. No final da temporada, em Lisboa, chegou ao conhecimento do chefe da delegação do Vasco que Fausto e Jaguaré tinham assinado contrato com o Barcelona.

Naquela época o preconceito existia com mais intensidade e Fausto e Jaguaré tornaram-se alvos de críticas ofensivas por parte da imprensa. A resposta dos dois eram atuações que se transformavam em grandes vitórias para o Barcelona.

Poucos dias antes de uma excursão, Fausto estava acamado com muita febre e tossindo muito. Seu estado de saúde impedia que viajasse. A diretoria do clube espanhol o multou. Depois da derrota para o time húngaro do Ujpest por 4 a 0, Fausto e alguns companheiros foram apontados como culpados. Esses fatos motivaram a saída de Fausto do Barcelona. O destino foi o Young Fellows da Suíça, no início de 1933. A permanência no futebol suíço durou apenas dois meses.

Já no Brasil, depois de resolver as questões contratuais com os espanhóis e suíços, Fausto retornava ao Vasco da Gama. No Campeonato Carioca de 33, ano da implantação do profissionalismo, Fausto não atuou como nos velhos tempos. No ano seguinte, ao lado de grandes craques, como Domingos da Guia e Leônidas da Silva, o maravilhoso futebol de Fausto voltou a brilhar.

O Vasco conquistou o campeonato carioca de 1934 com um time formado por jogadores de alta categoria: Rei, Domingos e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Orlando, Leônidas, Gradim, Nena e Dallessandro. O time vascaíno terminou a competição com a vantagem de quatro pontos sobre o São Cristóvão, vice-campeão.

Fausto não se afastava da boemia e as gripes eram mais frequentes. A ausência na Copa de 34, na Itália, não foi por motivo de saúde e sim porque o Vasco, cujos jogadores eram profissionais, não tinha o reconhecimento da CBD.

No dia 24 de fevereiro de 1935, em São Januário, a seleção brasileira derrotou o River Plate da Argentina por 2 a 1, Fausto no vestiário sentiu fortes dores no peito que se estendiam pelo corpo.

Consciente do mal que o acometia, Fausto continuava a não seguir os conselhos médicos. Passou a fazer segredo da doença e tocar a vida normalmente. O fôlego começou a faltar nos jogos e ele procurava se poupar no início para correr no final ou fazia o inverso.

Em maio aceitou a proposta do Nacional e viajou para Montevidéu. A permanência na terra que o denominou de a “Maravilha Negra” não durou mais do que sete meses. Seus companheiros começaram a reclamar, porque Fausto não corria o tempo todo.

Quando retornou ao Brasil vários clubes se interessaram em contratá-lo. Até resolverem quem teria direito sobre ele por questões contratuais, Fausto ficou sem poder jogar. Flávio Costa, admirador de seu futebol, tanto insistiu que o Vasco acabou liberando o jogador para o Flamengo.

Agradecido à diretoria do Flamengo, Fausto se afastou um pouco da vida boêmia. Todavia, no campo sua condição física não lhe permitia correr o tempo todo. Seu sistema nervoso abalado já há algum tempo o levava a criar casos com os árbitros e ser expulso em vários jogos.

Em fevereiro de 1937, José Bastos Padilha, presidente do Flamengo, contratou o técnico húngaro Dori Kruschner. Profissional experiente, logo percebeu as limitações de Fausto sem deixar de reconhecer suas virtudes técnicas. O jeito era tirá-lo do meio campo e recuá-lo para a zaga onde jogaria na sobra e correria menos. Fausto influenciado pelas más línguas achou que o húngaro o considerava acabado para o futebol.

Nos treinos, Fausto desobedecia às instruções de Kruschner, avançava para armar o jogo e deixava espaços na defesa. O fato se repetia a cada treino até o dia em que o técnico comunicou o fato a José Bastos Padilha. O presidente rubro-negro multou o jogador e o afastou do time. Fausto fez até apelo público pelos jornais para ser perdoado, mas Padilha manteve sua decisão.

Após as eleições quando Raul Dias Gonçalves substituiu José Bastos Padilha na presidência do clube, Fausto retornou à Gávea. Numa excursão à Bahia, uma forte gripe o colocou de cama. Fausto perdia ali a oportunidade de ser chamado por Ademar Pimenta, técnico da seleção brasileira na Copa de Mundo de 38, na França.

Alguns meses depois, num treino sentiu profundo cansaço e forte dor no peito. Os dirigentes do Flamengo o aconselharam a descansar em Cambuquira, estância hidromineral no sul de Minas. Não admitia ficar distante do futebol e participou da equipe reserva do Flamengo contra o América na decisão do título da categoria. Era sua despedida dos gramados. No dia seguinte, teve uma hemoptise. Insistente, Fausto se apresentou na Gávea para treinar. Veio o desmaio e nova hemoptise. Era o início do fim.

Aconselhado pelo médico viajou para Palmira, no interior de Minas Gerais. Lá ficou internado num sanatório até às 6 horas da tarde do dia 29 de março de 1939. Nesse dia, o mundo do futebol perdia um de seus maiores expoentes. No dia 28 de fevereiro de 2015, Fausto dos Santos, a “Maravilha Negra” completaria 110 anos.

 

  • Fausto, 8º em pé a partir da esquerda, no time do Bangu que venceu o Fluminense por 2 a 1, no dia 13 de março de 1928, em Álvaro Chaves.

F1

  • Time do Vasco campeão carioca de 1929: Tinoco, Brilhante, Itália, Jaguaré, Fausto e Mola; Paschoal, 84, Russinho, Mário Matos e Santana.

F2

  •  Seleção brasileira antes do jogo diante da Bolívia, na Copa de 1930, no Uruguai. Fausto é o 4º em pé a partir da esquerda.

F3

  • Fausto quando defendeu o Barcelona.

F4

  •  Num Fla x Flu, em 1936, Fausto domina a bola ao lado de Médio e observado por Romeu e Hércules.

F5

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