Lido com Esporte: Romário, o Livro

Por: Marcos Eduardo Neves

Se há um personagem do mundo do futebol que merece, por ainda não ter, uma biografia digna, esse cara é justamente aquele que Deus apontou lá de cima e disse: você é o cara. Sim, Romário de Souza Faria. O mais completo goleador que tive o prazer de ver jogar.

Dizem que na Holanda há uma biografia dele, cuja parte brasileira coube ao jornalista Gilmar Ferreira dar os subsídios para que fosse escrita. Jamais este livro me chegou às mãos. Entretanto, o radialista tarimbado Marcus Vinícius Rezende de Moraes reuniu um material de primeira linha e assinou “Romário”, editora Altadena, 2009. Ao todo, 295 páginas de histórias saborosas. Mas bem que poderia trazer uma capa mais condizente com o gigante que ele foi nos campos.

Ao longo da obra, por meio de 100 depoimentos, conhecemos um pouco mais do “Gênio da Grande Área”, como enalteceu seu ex-treinador no Barcelona Johan Cruijff. Atrevo-me a dizer que Romário é uma espécie de Madonna do futebol, pela capacidade que teve de se manter em evidência em meio a várias gerações. Sustentou longa carreira e em alto nível por, ao contrário do que disse e nisso se atrapalhou a ex-presidente Dilma Rousseff, estipulou metas – e mais que as dobrou, assim que as atingiu.

A última meta foi o milésimo gol. Contudo, o livro revela que, com o drama das semanas que se sucediam sem que o tento saísse, o Baixinho pensou até em se aposentar com 999. Afinal, seria algo diferente. E diferente ele era, diferenciado.

Assim como seu nome. “Romário, o Homem Dicionário” foi um personagem da extinta Rádio Nacional. Sua família pobre veio do Espírito Santo para a favela do Jacarezinho e, antes de tornar a Vila da Penha famosa no globo terrestre, Romário nasceu na Tijuca. Criança asmática, ajudou a mãe a entregar as roupas que passava e lavava. Estudava em Cordovil e sofria bullying, apanhando sempre de um garoto a caminho da escola. Seu sonho era ganhar uma bicicleta de Natal e um dia dirigir um carro, mesmo que de segunda mão. Juntava um trocado descarregando caminhões de melancia na Ceasa, no Irajá, de 5h às 7h.

Em 1979, foi recusado pelo Vasco, por causa do peso e da baixa estatura. No infantil do Olaria, dobrou os dirigentes da Colina. Ainda assim, em 1983, dois anos após chegar, quase deixou São Januário de vez, devido à pouca massa muscular.

Menos mal que ficou. Para o Vasco. Pois Romário sabia quem era. Certa vez, chamou o técnico Antônio Lopes na chincha: “Professor, tenho que ser titular… jogo mais do que o Roberto”. Dinamite vinha sendo chamado de velho. Romário, por conta disso, cogitou jogar apenas até os 28 anos. Não queria passar pela mesma humilhação.

Quase foi negociado com um clube da segunda divisão da Itália; Eurico Miranda proibiu sua saída. Em 1988, transferiu-se para o PSV Eindhoven, na maior transação do futebol nacional até então. No frio holandês, sentia falta do Brasil. Quando em férias, não tinha vontade de deixar o Rio de Janeiro. Chegava a dormir com dentes de alho nas axilas para amanhecer febril e ganhar uns dias a mais na Cidade Maravilhosa, antes de pegar o voo de volta à Europa.

Romário admira Afonsinho e, como o ex-guerreiro do passe livre, sustenta o que fala. Firme nas opiniões, diz na cara o que pensa e é amigo sincero, de grupo, nada desagregador, como diziam. Seu ex-parceiro de ataque no Flamengo, Sávio nega ter sofrido agressão de Romário na China: houve apenas um desentendimento normal em campo. No vestiário, tudo resolvido.

Autêntico, o camisa 11 mais famoso dos campos admite-me preguiçoso. Para seu ex-companheiro Geovani, se gostasse de treinar, teria marcado não mil, mas 2 mil gols. Entretanto, era sonolento. Amava a noite. Saiu de uma micareta em Juiz de Fora para marcar três pelo Vasco e retornar à farra. Quase sempre, dormia minutos antes de entrar em campo, fosse treino ou jogo. O técnico Vanderlei Luxemburgo teve problemas com ele no Flamengo, em 1995. Sustenta, inclusive, que Romário sequer dormiu na concentração na véspera do Fla-Flu decisivo. Chegou às 5h da matina, no 25 de junho fatídico para os rubro-negros.

Autor do gol de barriga daquele jogo, Renato Gaúcho conta que os dois apostavam mulher antes dos clássicos. Romário não era fácil. Em duas ocasiões, driblou três namoradas sentadas ao mesmo tempo nas cadeiras especiais do Maracanã, para não sair do estádio com apenas uma. Tão mulherengo, minutos antes de se casar com Monica Santoro ficou em dúvida se seguia ou desistia. No entanto, era igualmente emotivo. Foi às lágrimas assim que soube que teria uma filha com síndrome de down: “Papai do céu nos mandou um bebê especial”, sorriu para a mãe de Ivy, ao tomar ciência da notícia.

O livro explica o porquê de não defender a seleção de Felipão em 2001 para operar a vista e, no entanto, jogar na mesma época pelo Vasco, no México. Traz também o teor do que seu procurador, Luizinho Moraes, disse para o então gerente de futebol do Flamengo, Gilmar Rinaldi, assim que o Baixinho foi demitido do clube, em 1999.

Para Evaristo de Macedo, Romário é como obra de arte: não tem que defini-lo, mas admirá-lo, como quadro de Picasso. Não é todo mundo que faz o que ele fez. Pelo PSV, numa ocasião, bateu de kart, levou sete pontos na mão, alegou ter sido um tombo, e ainda assim, no dia seguinte, marcou dois no goleiro adversário. Dono de tiradas sensacionais, como a do “entrou no ônibus agora e já quer sentar na janelinha”, perguntado sobre quantos cavalos tinha sua nova BMW, respondeu: “O hipódromo todo!”

Nomes como Gerson, Junior, Bebeto, Ricardo Rocha, Branco, Zagallo, Parreira, Joel Santana, Sebastião Lazaroni, Eraldo Leite, Armando Nogueira, Luiz Mendes, Roberto Assaf, Mauro Betting, Paulo César Vasconcellos, Rodrigo Paiva, Kleber Leite, Eurico Miranda, Celso Barros e tantos mais que participaram da sua trajetória se somam a preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas, amigos e familiares. O que me deixou com uma dúvida e outra certeza.

A certeza de que o autor fez o trabalho certo, colhendo material na fonte, melhor, nas fontes. E a dúvida se melhor faria caso chamasse alguém, um escritor ou jornalista, para dividir a assinatura. Pois bastaria juntar todo o quebra-cabeça que a leitura nos traz para, aliado a depoimentos pontuais de estrangeiros, transformar o livro numa biografia propriamente dita. Como o trabalho ficou pela metade, dou ao livro nota 10. Daria 11, como a camisa de Romário, se a obra se tornasse definitiva. Como merece o melhor definidor da minha geração.

 

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Autor da biografia com Romário