No Chile, a Copa do Mané – 4ª parte

Por: José Rezende

A trajetória de Mané, o herói do bi

Quando o rapaz Manoel dos Santos embarcou no trem das 11 horas, numa tarde em Raiz da Serra, com destino ao Rio de Janeiro, não imaginava que seria bicampeão mundial. Com o mesmo futebol simples, espontâneo que praticava nas peladas em Pau Grande, ele foi mais além: passou a ser a “Alegria do Povo”.

Ao descer na estação Barão de Mauá, estava a esperá-lo um sócio proprietário do Botafogo, que o levou de táxi a General Severiano. Corria o ano de 1953 e até hoje o não identificado botafoguense já assistira várias vezes Manoel defender às cores do S.C. Pau Grande. Encantado com o seu futebol, o misterioso alvinegro prometera a ele próprio que aquele jogador vestiria um dia a camisa do seu querido Botafogo. A missão de levá-lo para General Severiano coube ao zagueiro Arati.

Manoel chega ao Botafogo

Manoel não reagiu bem ao convite para treinar em General Severiano. Havia se decepcionado no São Cristóvão, onde foi tratado com indiferença; no Vasco nem chuteiras lhe deram; e no Fluminense foi chamado de aleijado. Mas, por insistência de alguns amigos resolveu fazer nova tentativa.

Recebido por Nilton Cardoso, filho e auxiliar do famoso técnico Gentil Cardoso, Manoel recebeu o uniforme do time reserva e entrou em campo. Seu marcador era o maior lateral-esquerdo do mundo, Nilton Santos. Para ele um adversário qualquer como tantos que estava acostumado a enfrentar nas peladas e nos jogos do S.C. Pau Grande. Ao receber a bola de Quarentinha, Manoel partiu para cima de Nilton Santos, como fazia com os seus outros marcadores na Raiz da Serra. Alguns afirmam, e Nilton Santos confirmava que Manoel jogou a bola entre as pernas do seu famoso marcador e partiu para o gol.

Outros, como Paulo Amaral e Juvenal, campeão em 1948, diziam que o lance aconteceu de forma diferente. O fato é que surgia, naquele momento, o verdadeiro e inigualável fenômeno de todos os tempos do futebol mundial.

Os primeiros chutes do garoto Manoel foram dados nas peladas da Rua dos Caçadores. Fascinado por uma bola, ele sempre arranjava uma desculpa para faltar à Escola Domingos Bebiano, da Fábrica Pau Grande da Cia. América Fabril.

João, irmão mais velho, apelidado de Zé Baleia, foi seu primeiro técnico. Gostava de reunir e orientar a garotada, razão pela qual fundou o Palmeiras F.C. O destaque do time era o garoto Manoel. No Palmeiras e depois no Cruzeiro do Sul, Manoel jogava de meia- esquerda. Quando jogou no Serrano, onde ficou apenas três meses, descobriu a sua verdadeira posição, ponta-direita. Depois passou a defender o 1o time do Sport Club Pau Grande. Suas brilhantes exibições empolgavam a todos que o assistiam, inclusive, o tal botafoguense que o levou para General Severiano.

Gentil, quando chegou, ouviu de Nilton Cardoso os maiores elogios sobre o treino do garoto. Chamou Garrincha e perguntou se ele faria tudo de novo. Simplório, Garrincha respondeu que talvez sim, talvez não. O veterano treinador mandou os jogadores voltarem para o campo e reiniciou o treino. Garrincha repetiu o que fizera com Nilton Santos na ausência de Gentil Cardoso. O técnico não perdeu tempo e autorizou a contratação de Garrincha. Essa versão foi contestada por Juvenal, quando o entrevistei. Segundo ele na ocasião do treino de Garrincha a equipe principal estava viajando. Tenho essa entrevista gravada no meu acervo.

Certa vez, conversando comigo e com o falecido repórter Pedro Paradela, Garrincha nos contou que Arati, ex-jogador do Madureira e do Botafogo, o viu jogar, em Pau Grande, quando foi apitar uma partida. Daí o ter indicado ao homem que lhe abriu às portas do Botafogo.

A origem do apelido

Quando menino outra diversão predileta era caçar passarinhos. Como era pequenino e gostava de pegar garrinchas, pequeno pássaro mais conhecido pelo nome de cambaxirra, sua irmã Rosa lhe deu o apelido de Garrincha, com o qual ficou conhecido mundialmente.
Os repórteres que estavam presentes ao primeiro treino de Garrincha, no dia seguinte, elogiaram o desempenho do garoto das pernas tortas. O Diário da Noite publicou: “Surgiu uma nova estrela no Botafogo. Sensacional o treino de Gualicho”. No início a imprensa o chamou de Gualicho, nome de um cavalo veloz e campeão das corridas no Hipódromo da Gávea. Depois Garrincha passou a ser nome obrigatório, escrito e falado, em todos os veículos de comunicação.

Os primeiros jogos e a estréia no time titular

Antes de estrear na equipe principal do Botafogo, Garrincha atuou em dois amistosos e na equipe de aspirantes contra o São Cristóvão. As duas primeiras partidas foram, em Miguel Pereira, frente ao Avelar F.C., e diante do E.C. Cantagalo, em Cantagalo, onde marcou três gols, no dia 29 de junho de 1953. O Botafogo venceu, respectivamente, por 1 a 0 e 5 a 1. Nos aspirantes, na vitória sobre o São Cristóvão, Garrincha fez dois gols dos cinco feitos pelo Botafogo.

Morava na Rua Farani, em Botafogo, e o meu Fluminense jogava diante da Portuguesa, em Campos Sales. Garoto, apaixonado por futebol, resolvi ver a partida entre Botafogo e Bonsucesso, em General Severiano, que era mais perto de casa.
Naquele domingo, 19 de julho de 1953, eu tive o privilégio de assistir a estréia daquele que se tornaria o verdadeiro e único fenômeno do futebol mundial. Alguns podem indagar: e o Pelé? Para mim o jogador mais completo do mundo em todos os tempos. Os dois foram gênios. Enquanto Pelé era um atleta física e tecnicamente perfeito, Garrincha, além das pernas tortas, durante a vida não se libertou do alcoolismo.

Mesmo assim encantou o mundo com seus dribles. Era sem dúvida a “Alegria do Povo”.
Meu querido amigo e brilhante repórter Luís Fernando, “o repórter que sabe do tudo”, falou sobre Garrincha:
“Ele estava sempre alegre, mesmo quando perdia uma partida. Ele se divertia jogando. A bola para ele era um brinquedo.

Quando ele voltou do Chile, após a Copa do Mundo, renovou contrato com o Botafogo, que não lhe deu o dinheiro que havia prometido. Na época, o time estava indo para Recife, jogar três amistosos contra o Náutico, Sport e Santa Cruz. Na hora do embarque, no Aeroporto Santos Dumont, ele não apareceu. Então, os diretores Renato Estelita e Djalma Nogueira chamaram o Nilton Santos e disseram:
“Nilton, vai a Pau Grande buscar o Mané, que nós vamos remanejar o vôo de vocês para às 18 horas.”

Eu estava ao lado do Nilton e perguntei se podia ir junto. Então entramos no carro e partimos para Magé. Quando chegamos à porta da casa, encontramos uns garotos jogando uma pelada com bola de meia. Nilton foi entrando e Dona Nair, que foi a primeira esposa do Garrincha, o recebeu e disse que o marido estava pescando com os amigos Swing e Pincel. Dona Nair chamou um dos garotos para nos guiar e, quando chegamos à beira do riacho, encontramos todos adormecidos ao lado de três garrafas de cachaça vazias. O Nilton acordou o Garrincha e disse: “Vai para casa tomar um banho gelado e botar um terno, porque você vai comigo para Pernambuco.” E assim foi. Ele respeitava muito o Nilton Santos. Viajou e disputou os três jogos.”

Garrincha fez do futebol uma eterna brincadeira. Enquanto os pontas normais fugiam de seus marcadores, ele os procurava. Um dia conversando na sala do Departamento de Esporte, da Rádio Nacional, com o querido e saudoso amigo Zoulo Rabelo, o “Professor de Bola”, ex técnico do Botafogo, ele me disse que instruía o zagueiro Joel para sempre tocar a bola para o Garrincha. Joel respondia: “Seu Zoulo, o Mané está sempre perto do marcador”. Zoulo insistia: “Dê a bola prá o Mané que ele resolve”.

Voltando à tarde do dia 19 de julho de 1953, lembro-me bem que no 2o tempo o Botafogo atacou para o gol da Rua General Severiano. Quando houve o pênalti, vi o Geninho, capitão da equipe, pegar a bola. Acredito que para bater a falta máxima. Garrincha se aproximou e tirou a bola do Geninho. Não ouvi o que ele falou para o veterano craque. Porém, pelos gestos decidira bater o pênalti, como fazia em Pau Grande.

Conversando com Nilton Santos sobre o fato, ele me disse:
“Garrincha não deve ter falado nada, pegou a bola, como sempre fez, em Pau Grande, e bateu o pênalti”.
Juvenal me confirmou o que dissera Nilton Santos. Mané chutou e marcou mais um gol dos três que fizera no goleiro Ari. Final Botafogo 6 x Bonsucesso 3.

Os rubro-anis abriram a contagem aos quatro minutos por intermédio do ex-tricolor Simões, batendo falta de fora da área; Garrincha cobrou escanteio da direita e Vinicius empatou aos 20 minutos; e Lino desempatou, ainda, no 1o tempo. Na fase final, Garrincha marcou três gols e Dino dois para o Botafogo;

Benedito encerrou o placar.

A equipe alvinegra jogou com: Gilson, Gerson e Nilton Santos; Araty, Bob e Juvenal; Garricho (futuramente Garrincha), Geninho, Dino, Carlyle e Vinicius. Na edição do Jornal dos Sports no dia da estréia de Garrincha estava escrito: “Garricho estreará no Botafogo”. Na 3a feira, dia 21, o JS não saía na 2a feira, o time do Botafogo estava escalado com Garricho, na ponta- direita.
O Bonsucesso se apresentou com Ari, Duarte e Mauro; Urubatão, Décio e Serafim; Lino, Wilson, Simões, Soca e Benedito.
As manchetes dos jornais ainda faziam confusão com o seu nome a o chamavam com frequência de Garrincho, Garrixa, Garrixo e Gualicho. Os jogos se sucediam e o futebol de Garrincha encantava os torcedores, a imprensa esportiva. Seu nome se firmava a cada dia.
Gilson Murci, hoje diretor de um Colégio em Botafogo, era o goleiro alvinegro no dia da estréia de Garrincha:
“Estreei no time principal do Botafogo junto com Garrincha e me orgulho muito disso. É uma honra que guardo até hoje e conto sempre aos meus filhos e netos as aventuras dele. Fui seu companheiro de equipe e posso dizer que ele tinha um coração bom, puro, sem maldade nenhuma e jogava por prazer. Os dribles desconcertantes que dava nos adversários nunca foram para desmoralizar ninguém. Ele jogava futebol como se estivesse brincando na praia ou num terreno baldio. Foi um grande sujeito e, para mim, o melhor jogador de todos os tempos. Tenho orgulho de ter jogado no mesmo time que ele e de ser botafoguense.”
Títulos e grandes atuações

No time do Botafogo jogavam Vinícius e Dino dois atacantes artilheiros que seguiram o caminho do futebol europeu. Contratados, respectivamente, pelo Nápoli e pela Roma, se radicaram ao futebol italiano e se realizaram financeiramente. Acredito que ambos são eternamente gratos a Garrincha. Foram inúmeros os jogos em que depois de deixar os adversários para trás, Garrincha entregava a bola limpa para a finalização dos dois companheiros.

Nilton Santos nos contou que numa excursão à Europa, Vinícius pediu a Garrincha para ajudá-lo a fazer gols, a fim de ser contratado por um clube europeu.
Com a contratação de Didi em 1956 e a formação de uma grande equipe, Garrincha passou a ter a companhia de outros craques. Até ali ao seu lado jogavam bons jogadores e, apenas, Nilton Santos era um fora de série.

Em 1957, o Botafogo possuía excelente time com as destacadas presenças de Nilton Santos, Didi, Pampolini, Paulo Valentim e Quarentinha. Completavam a equipe os eficientes Adalberto, goleiro, Beto, Tomé e Servílio, zagueiros, e o meio-campo Edson.
No campeonato, Garrincha brindou a torcida alvinegra com extraordinária exibição na final, arrasando a defesa do Fluminense. Quem se beneficiou com o show de Garrincha, foi o atacante Paulinho Valentim que marcou cinco gols e se tornou o artilheiro daquele ano.

Logo após a conquista do campeonato, o Botafogo embarcou para mais uma excursão ao exterior. Os jogos se sucederam em vários países americanos até a disputa do Torneio Pentagonal, no México, com a participação do Guadalajara, Toluca, Zacatepec, clubes locais, River Plate, tricampeão argentino, e Botafogo.

A equipe alvinegra perdeu na estréia para o Guadalajara por 2 a 0, se reabilitando com as vitórias sobre o Toluca e o Zacapetec, respectivamente, por 4 a 3 e 3 a 1. Garrincha com atuações espetaculares desmantelava as defesas adversárias, culminando com a desmoralização do zagueiro argentino Vairo, pelos dribles que levou do ponteiro botafoguense, no empate de 1 a 1 com o River Plate. Garrincha além das notáveis exibições foi o artilheiro alvinegro com nove gols.

Garrincha impressionava a todos pela facilidade com que passava pelos seus marcadores e brincava de jogar futebol. Convocado para as eliminatórias da Copa de 58, Garrincha atuou, inicialmente, na ponta-esquerda e depois jogou na sua verdadeira posição.

Em Lima, no empate de 1 a 1 contra o Peru, integrou o ataque brasileiro na extrema- esquerda com Joel na ponta-direita. No Maracanã, na segunda partida frente aos peruanos, atuou na sua verdadeira posição, passando Joel para a ponta-esquerda.

Na Europa, antes da Copa, nos amistosos contra a Fiorentina e a Internazionale, Garrincha acabou com as defesas adversárias. No jogo diante da Fiorentina, Garrincha depois de driblar toda a defesa da equipe italiana, inclusive, o goleiro, parou, esperou a chegada de um zagueiro, num passo de toureiro livrou-se do adversário, que foi parar no fundo da rede, e, finalmente, terminou sua obra de arte, marcando o gol.

Sua ausência nos dois primeiros jogos do Brasil, frente à Áustria e a Inglaterra, tem diferentes explicações. Paulo Amaral, integrante da comissão técnica em 58, deu sua versão em matéria anteriormente publicada. O fato é que na estréia contra a URSS, ele, logo nos primeiros minutos da partida, desmontou todo o esquema que o técnico soviético havia preparado para marcá-lo. O beneficiado desta vez foi o centroavante Vavá, que soube aproveitar os cruzamentos de Garrincha.

Terminada a partida final diante da Suécia, Gunnar Green, técnico sueco disse: “Garrincha nos deixa complexados. Faz sempre a mesma coisa… mas passa sempre”.
Um ano depois da conquista da Copa do Mundo, o Botafogo excursionou à Europa. Os alvinegros enfrentaram os austríacos e os suecos, empatando com os primeiros de 2 a 2 e vencendo os escandinavos por 3 a 0, respectivamente. O técnico da Áustria declarou após a partida:
“Pensei que o jogo estivesse ganho, mas aquele extraordinário jogador que nos deixou malucos, driblou a todos e fez o gol”. Outra declaração foi a do treinador da Suécia, Gunnar Green: “O que fazer? Eles trouxeram Garrincha de novo”.

Nilton Santos gostava de instigar Garrincha. Nas excursões falava: “Fulano de tal, seu marcador, declarou que esse tal de Garrincha não é de nada”. Começava o jogo, Mané estraçalhava o marcador e perguntava prá mim: “É esse o viado?”. Eu respondia: “Sei lá.”

Campeão do mundo em 58, Mané passou a ter ao seu lado no Botafogo mais um campeão mundial: Zagalo. Contratado ao Flamengo, o ponta-esquerda juntava-se a Garrincha, Didi e Nilton Santos.
Veio o bicampeonato estadual de 1961/62 e Garrincha proporcionava mais um grande show na final de 62 contra o Flamengo. Além de liquidar o esquema defensivo armado por Flávio Costa, ele marcou os três gols na vitória por 3 a 0.

Na Copa de 62, no Chile, a seleção brasileira perdeu Pelé no empate de 0 a 0 frente à Tchecoslováquia para o resto do campeonato. Garrincha passou a fazer de tudo. Contra a Inglaterra fez gol de falta, de perna esquerda, de cabeça e chegou até ser expulso diante do Chile.
Na partida contra o Chile, o lateral esquerdo Eládio Rojas não satisfeito com as entradas violentas em

Garrincha, deu-lhe um tapa no rosto. Naquele dia, Mané perdeu a paciência e reagiu com um pontapé no traseiro do chileno. O árbitro peruano Arturo Yamasaki alertado pelo bandeirinha uruguaio Esteban

Marino o expulsou. Garrincha não acreditava no que estava acontecendo e meio atordoado deu a volta em torno do gramado, quando foi atingido por uma pedrada. Aimoré Moreira que fora ao seu encontro, o acalmou e o fez entender que o árbitro o expulsara.

Os jornais chilenos estampavam manchetes elogiando as atuações de Mané: “Garrincha no es deste planeta. Viene de Marte”; Winterbotton, técnico inglês, declarou depois do jogo Brasil 3 x Inglaterra 1:
“Preparamos nossos rapazes cuidadosamente durante quatro anos para enfrentar times de futebol. Não esperávamos um Garrincha.”

Jorge Viera, técnico campeão estadual com o América em 1960, se preocupava com Garrincha, antes dos jogos contra o Botafogo:

“Treinávamos a semana toda uma tática que, pelo menos, impedisse que ele chegasse ao fundo com facilidade. No esquema, o Ivan fechava a lateral para não deixar ele partir com a perna direita, forçando-o a jogar com a esquerda, com a qual não tinha domínio completo, e dava um drible mais largo, permitindo que o João Carlos pudesse roubar a bola. Às vezes dava certo, mas quase sempre o Garrincha arrumava um jeito de passar.”

O início do fim

Após o bicampeonato carioca de 61/62, os médicos chegaram à conclusão de que o problema no joelho direito de Mané Garrincha era uma artrose. O recomendável seria parar uns noventa dias para tratamento. Os contratos que o Botafogo assinava para jogos no exterior sempre exigiam à presença de Garrincha. Sem ele a cota por partida caía pela metade. Mais uma vez ele atendia os interesses do clube. Conseguia jogar por causa das infiltrações no joelho lesionado. A velocidade inicial com que partia para passar pelos adversários não era a mesma. Desgostoso, começou a engordar. As atitudes dos dirigentes com ele não eram as mesmas principalmente depois da cirurgia realizada pelo Dr. Marques Tourinho, médico sem vínculo com o Botafogo. Chegou a ser multado e afastado do time.

Finalmente, o Botafogo após recusar várias propostas para vender o passe de Garrincha, acertou sua transferência para o Corinthians. Garrincha ainda foi à Copa de 66, na Inglaterra, e ao lado de Pelé venceu a Bulgária por 2 a 0, gols dele, de falta, e de Pelé. Frente à Hungria perdeu por 3 a 1 e não enfrentou Portugal, sendo substituído por Jairzinho, herdeiro da sua posição no Botafogo.
Depois jogou, em 67, no Atlético Júnior, da Colômbia. Retornou ao Brasil e vestiu a camisa do Flamengo em 68. Garrincha encerrou a carreira, em 1972, como jogador do Olaria. Depois, Mané passou a integrar a equipe de veteranos do Milionários que com grandes ex-craques se exibia pelo interior do Brasil. Deixar os gramados sempre foi uma tarefa dificílima para Garrincha. Ele dava alegria ao povo, porque o futebol era a sua própria alegria.

Adeus, “alegria do povo”

Transmiti, em 1973, o jogo de despedida de Garrincha frente à seleção de jogadores estrangeiros que atuavam no Brasil. A emoção foi grande ao narrar o drible de Garrincha no zagueiro uruguaio Bruñel, do Fluminense. Bola entre às pernas do adversário e do bico da área o chute por cima do travessão. Dizem que o ex-jogador Gilbert, um dos organizadores da partida juntamente com os repórteres Vitorino Vieira e Pedro Paradela, pediu a Bruñel que o deixasse driblar.

Emoção maior estava por vir. Dez anos depois, no dia 20 de janeiro de 1983, estava na redação da TVS-canal 11, quando o grande jornalista Mário Moraes, nosso diretor de jornalismo, recebeu a notícia da morte de Garrincha. Designado para fazer a matéria, o repórter Melinho me perguntou se eu queria acompanhá-lo. Fui e ao chegar encontrei o corpo de Manoel dos Santos sobre a mesa da capela da Casa de Saúde Dr. Eiras, sozinho, sem os refletores que iluminaram seus shows e sem o calor dos milhões de torcedores que o aplaudiram nos palcos esportivos.

Na minha cabeça passou um filme, cujo início foi à estréia contra o Bonsucesso; depois os dribles nos “joões” brasileiros e estrangeiros, seus marcadores apavorados e por ele sempre deixados prá trás; a vibração dos torcedores com a alegria que lhes era proporcionada; às estórias contadas por seus amigos, especialmente, as que surgiam nas longas conversas com João Saldanha e Zoulo Rabelo, queridos companheiros de trabalho, enfim tudo de bom que Mané nos deu.
Ali rumo à seleção do céu, estava “A alegria do povo”, “O demônio das pernas tortas”, o “Espantalho”, como dissera o extraordinário goleiro Castilho, do Fluminense, após a final do campeonato carioca de 1957.

Como afirmou Gerson, o “Canhotinha de Ouro”: “Garrincha era desconcertante”. Com simplicidade e modéstia, Garrincha explicava os seus dribles:
“Eu já nasci com o dom de driblar. Eu acho muito mais fácil uma pessoa que tem a bola dominada partir para cima do seu marcador, porque o marcador está sempre esperando e apoiado no chão. Você correndo tem mais facilidade de dar um toque na bola, enquanto ele se vira para acompanhar você, você já está longe”.

Não cometam o imperdoável equívoco de comparar Garrincha com qualquer outro jogador do planeta Terra. Mané e Pelé são criaturas únicas criadas pelo Criador.

Schroif se curva ao majestoso futebol de Garrincha.

 

O futebol desconcertante de Mané trouxe a Taça Jules Rimet para o Brasil pela segunda vez consecutiva.

 

Promessa é dívida. O prêmio pelo bi mundial era o Mainá. Mané trouxe a taça e o Governador Carlos Lacerda, conforme havia prometido, lhe deu o belo pássaro.

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