Sávio – Dribles Certeiros de uma Carreira de Sucesso

Por Marcos Eduardo Neves

Sempre digo que se o Zico surgisse hoje em dia, jogaria no máximo uma Taça Guanabara pelo Flamengo antes de assinar com algum time europeu. Neymar, por exemplo, ficou quatro anos no Santos e parece que foi uma eternidade. É com esse sentimento nostálgico que escrevo a coluna sobre talvez o último projeto de grande ídolo surgido na Gávea, Sávio. Atacante que ficou pouco mais de três anos no clube e acabou fazendo carreira longe.

Escrito por Renan Koerich, “Sávio – Dribles certeiros de uma carreira de sucesso” não pode ser considerado biografia. Contudo, preenche as lacunas para os fãs ávidos por entender o que se passou desde que o jogador se transferiu, no começo de 1998, para o Real Madrid.

Confesso que me lembrei do primeiro livro que li, quando criança: “Zico – Uma lição de vida”. Óbvio que Sávio não se tornou Zico; digo isso pelo livro em si: o tipo de leitura e de textura da obra. Linguagem fácil.

Ponto positivo para a editora Maquinária, que transformou a história num livro atraente. Cheio de fotos e imagens, algumas históricas. Ao longo dos parágrafos, nos deparamos com um menino que, no auge da crise econômica dos anos 80, remarcava preços em prateleiras de mercado, num bairro humilde de sua Vila Velha natal. Um garoto que via a preocupação do pai em comprar apenas o necessário e não gastar com supérfluos, economizar, pensar e planejar o futuro. O que Sávio faria com a própria carreira.

Os irmãos tentaram a sorte com a bola. Um deles, no Fluminense. Aliás, o próprio Sávio vestiu a camisa tricolor, em 1986, numa competição para crianças. Graças às atuações, chegaria ao clube do coração, o Flamengo. Não sem antes tentar o Botafogo, mas o que houve em Marechal Hermes… compre o livro e saiba.

Sávio trocou a certeza de uma transferência para o Bahia pela dúvida de tentar a sorte no Mais Querido. Moraria na Rua Real Grandeza, sendo acolhido por uma nova família. Talentoso e obstinado, esperou a hora certa de brilhar. Em 1992 estreou, no ano seguinte foi lançado aos poucos, em 1994 se tornou titular e em 1995 já era do mesmo patamar de ídolos como Romário e Edmundo. Imarcável nos arranques. Genial nos golaços.

Logo descobriu o amor com Suzana e virou personagem de revista em quadrinhos distribuída em escolas públicas do estado, de tão exemplar e correto que era. Bom menino fora das quatro linhas, mas demoníaco nos dribles para cima de beques que tentavam abreviar-lhe a carreira.

Em 1994, Sávio estragou – entre aspas, claro – a despedida de Zico no Japão, ao fazer os dois gols sobre o Kashima Antlers. No ano seguinte, sobreviveu à guerra de egos no centenário rubro-negro, mas sofreu horrores com a perda do Estadual. Ganhou o Carioca em 1996 e na temporada seguinte se despediu. Deixou o clube, mas deu aos torcedores uma última alegria: impediu a consagração do Vasco na final do Mundial Interclubes de 1998.

O livro mostra como foi a passagem de Sávio pelo Real. O começo excitante, os três títulos da Champions League, o porquê de não ter jogado certos jogos decisivos e o motivo do adeus, em 2002.

A parceria com João Henrique Areias, a diversificação de investimentos, a experiência numa liga menor, em Bordeaux, tudo está no livro. Assim como a experiência fracassada no Levante. Porém, o que mais surpreende é a idolatria que alcançou junto às torcidas do Zaragoza e do Real Sociedad.

No Zaragoza, Sávio ganhou a Copa do Rei vencendo o poderoso Real Madrid, seu ex-clube, na decisão. De quebra, enfrentou o campeão nacional Valencia e faturou a Supercopa da Espanha, em 2004. Nada mal para um time que jogara a segunda divisão na temporada anterior.

Pelo Real Sociedad perdeu um pênalti crucial na penúltima rodada, o que sacramentou o rebaixamento do clube, mas a identificação com a torcida fez com que, ainda assim, saísse ovacionado de campo. Parte dramática, mas belíssima do livro.

A morte do pai; o fracasso na volta ao Flamengo – o que inclui desprezo por parte dos mandatários –; a passagem relâmpago pela Desportiva, em seu retorno ao Espírito Santo; a experiência exótica no futebol do Chipre e o último título, conquistado em 2010 pelo Avaí, com direito à falta de respeito de dirigentes catarinenses, nada foi omitido.

Enfim, o livro cumpre o seu papel. Apenas dois poréns. Um, o excesso de lances narrados em vários jogos. Talvez ficasse melhor se o autor se atentasse para os sentimentos vividos por Sávio durante os mesmos. O segundo, a falta de revisão da editora, que permitiu que inúmeros erros de português viessem a público. Boas sessões de revisão fariam jus a alguém que nunca levou a carreira nas coxas ou agiu de forma precipitada em momentos capitais.

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